
Seu Nome É Santo
Razões pelas quais Jesus nunca poderia ser gospel (de certa forma).
Eu tenho uma teoria sobre o que é “gospel” nos dias de hoje. Mas antes de passarmos a essa teoria, é preciso dizer que aquilo que chamamos de “gospel” hoje, no Brasil, é muito (e bota muito nisso) diferente do que era o gospel nos anos 50 e 60 nos Estados Unidos. Naqueles idos, gospel era (de forma bem resumida) um estilo musical nascido nas igrejas negras e que daria ao mundo algumas das maiores vozes do jazz, bem como músicos e compositores. Gospel no Brasil está bem distante disso. A única semelhança, na verdade, é o fato de ser um modus vivendi da igreja. Hoje o gospel está na música, no jeito, na roupa, no linguajar e no dia-a-dia de grande parte dos crentes brasileiros, embora o estilo não esteja restrito aos crentes evangélicos. De volta à teoria, creio que o “gospel” pode ser entendido de duas formas distintas, e muitas vezes colocamos tudo no mesmo balaio, já que os ramos desta árvore acabam ficando muito próximos uns dos outros. Sendo assim, gostaria de começar enumerando 3 pontos que considero essencialmente ruins do movimento, pontos que, embora não englobem tudo aquilo que há de pior no “gospel”, servem para elucidar o dano que tal cultura causa na igreja de hoje.
Em primeiro lugar, considero abominável o fato de grande parte do movimento ser centrado no eu. Isso não é apenas um padrão dentro da música gospel brasileira, mas algo que é recorrente em todo mercado cristão mundial, seja musical, literário ou na moda. Grande parte dos livros lançados hoje é uma corruptela dos livros de auto-ajuda do mercado secular, e apresentam as mais diversas fórmulas. Há manuais de como ser um bom líder, como ser um bom marido, como ser um bom líder de louvor. Grande parte disso tem a ver com o momento em que vivemos na igreja, um momento altamente secularizado e focado na vida aqui neste mundo.
Em segundo lugar, é absurdo até mesmo considerarmos a possibilidade de um movimento que nasce dentro da igreja e prioriza o lucro acima de qualquer outra coisa. No movimento gospel de hoje em dia impera a visão secularizada de negócios, e não uma visão de Reino. Nem mesmo as tentativas de justificar a doação de verbas para ações sociais e missões é justificável, uma vez que empresas seculares fazem o mesmo em busca de descontos nos impostos a serem pagos.
Em terceiro e último lugar, é desprezível um movimento que nasce dentro da igreja e mantém padrões tão baixos de virtude bíblico-teológica. Grande parte de todo o movimento enfatiza a teologia da prosperidade de maneira aberta ou velada (basta ouvir com atenção), enfatiza ensinamentos não-bíblicos como um segundo sacrifício vicário de Cristo, enfatiza a superioridade de alguns líderes e pseudo-apóstolos sobre as ovelhas de seu aprisco, entre outras coisas. Ponto a ponto, podemos ver que, contrastados com a palavra de Deus, esses ideais são anti-bíblicos e, portanto, muito distantes dos padrões do Reino de Deus.
Ao olharmos para o primeiro ponto, somos lembrados das palavras de Cristo em Mateus 22, quando Ele diz que o maior dos mandamentos é que amemos a Deus de todo nosso coração, alma e entendimento, e que amemos ao nosso próximo como a nós mesmos. Quanto mais abrirmos mão do nosso eu, mais próximos estaremos de cumprir o mandamento de Jesus, amando plenamente a Deus e ao nosso próximo. Quando no eu está no centro de nossa vida, damos valor primeiro às coisas que nos agradam e que nos fazem bem. Jesus como senhor de nossa vida muda essa perspectiva, levando-nos a crucificar o nosso eu e a abraçarmos o altruísmo, a caridade, a ação social e a justiça, o que finalmente nos levam a uma verdadeira adoração a Deus.
Ao olharmos para o segundo ponto, vemos que Cristo não era alheio às finanças e às leis romanas (como vemos nos episódios da moeda na boca do peixe – a César o que é de César –, e da mulher que derrama um perfume caríssimo para ungir os pés de Jesus). Entretanto, a passagem de Cristo com o jovem rico nos impressiona ao mostrar como o amor ao dinheiro é, de fato, a raiz de todos os males, como mais tarde o apóstolo Paulo nos diria. Os negócios do Reino se resumem a buscar a justiça, cuidando do órfão e da viúva, alimentando o necessitado e vestindo o carente. Não que seja errado um cristão possuir bens. O problema é quando os bens possuem o cristão. Se um cristão é bom mordomo daquilo que possui, ele saberá administrar suas posses de forma a entender que elas são recurso provido por Deus para sustentar a obra cristã no mundo.
Finalmente, olhando para o último ponto, somos lembrados pela palavra de Deus de que seríamos expostos a ventos de doutrinas e falsos mestres, que ensinariam coisas muito próximas às verdades bíblicas, mas essencialmente corruptas. Cristo nos adverte, em Mateus 7.15-23, acerca dos falsos profetas, e diz que muitos dos que em Seu nome expulsam demônios, profetizam e fazem milagres não entraram no Reino dos céus, pois praticam a iniqüidade. Esse é o problemático movimento “gospel”. Diria que boa parte do que vemos na mídia está associado a este galho da árvore.
Mas há ainda um ramo bom, um ramo que se preocupa mais com a verdadeira devoção, a boa prática cristã, a verdadeira exaltação de Cristo. Esses são aqueles que, muitas vezes, são mantidos no anonimato, pois suas mensagens são difíceis de praticar, pois requerem que as máscaras sejam tiradas. Jesus demanda de nós mãos e corações limpos e sinceros, e muitos artistas – músicos, escritores, poetas, atores, fotógrafos, cinegrafistas, designers… – têm se empenhado em demonstrar isso de uma forma diferente da qual estamos acostumados. Embora muitos possam colocá-los no mesmo balaio do movimento gospel, eu prefiro chamá-los de artistas, ministros cristãos. Creio que Jesus está muito mais associado a estes do que aos primeiros.
Cristo não pode ter Seu nome associado ao algo que está tão distante da Sua palavra. Especialmente no que se refere à santidade, uma vez que Seu nome é santo. Cristo nunca foi e nunca será “gospel”, ao menos enquanto o movimento estiver centrado no eu, focado nos lucros e distante da teologia bíblica. Jesus está associado àqueles que buscam, como a mulher samaritana, ser fontes de águas vivas, que satisfazem as pessoas, ao invés de consumi-las. Toda a glória do mundo seja somente àquele que venceu a morte e hoje vive: Jesus.
Eduardo Mano
http://eduardomano.net/











