
Há alguns anos atrás, lembro que era um ávido consumista gospel (sim eu confesso). Apaixonado pela CCM (Christian Contemporary Music – maneira pela qual a música cristã é chamada nos EUA, talvez o equivalente ao gospel no Brasil), estava sempre antenado, participava de todos os fóruns sobre o tema na internet, lia todos os sites, tinha todos os lançamentos. Nessa época achava errado ouvir música “secular”, então sempre buscava bandas que soavam como as que eu realmente queria ouvir. Existiam até sites com essas comparações, algo assim: Se você gostava de Metallica, ouça Eternal Decision; Se você gostava de Guns’n’Roses, ouça Bride e assim por diante. Comprava as coletâneas lançadas na gringa, comprava os VHS pra ter em primeira mãos os clipes e shows dessas bandas.
Então comecei a ver as pedradas que levavam as bandas que ousavam sair um pouco desse nicho. Bandas que se lançavam em gravadoras “seculares” eram tachadas de mundanas. Bandas que se apresentavam em festivais “seculares” supostamente estavam se vendendo. Percebi como os consumistas gospel eram maldosos, logo surgiam vários boatos sobre um ou sobre outro membro de tais bandas. Comecei a notar alguns membros de bandas aclamadas pela mídia cristã se decepcionando com as coisas que por lá aconteciam. Lembro do vocalista da banda Seven Day Jesus (que era da principal gravadora da época, Forefront Records) dizendo que estava cansado de ver tanta ambição e busca por dinheiro nesse meio. Segundo ele, a hora de chutar o pau da barraca foi quando viu em uma livraria as balas de menta TestaMints (algo como TestaMentos). Tudo podia virar produto. Tudo podia gerar lucro.
Certa vez tive em minhas mãos o release de uma produtora gospel. Li muito sobre mercado, sobre os milhares e milhões que circulam nesse meio, sobre público-alvo, sobre oportunidades de se ganhar dinheiro e talvez eu esteja errado, mas isso não me pareceu nada com o estilo de evangelismo que aprendo com o mestre Jesus nos Evangelhos. Existem pessoas que nem cristãos são, que estão ali porque já viram que é dinheiro certo. Isso me entristece.
Não quero apontar o dedo pra dizer quem está certo e quem está errado. O que quero é que a gente pare pra refletir se é assim que as coisas deveriam ser.
Fora isso, me entristece ver como formamos cristãos sem senso crítico nenhum. Ensinamos o que é seguro ouvir e o que não é. Como tudo no nosso tempo, pegamos o atalho da Lei do Menor Esforço. Pra que analisar? Pra que perder tempo julgando uma música? A Bíblia manda julgar todas as coisas e reter o que é bom, mas isso dá trabalho, certo? Mais fácil proibir tudo que não tem o rótulo gospel e liberar o resto.
Ensina-se que não se pode criticar tal música, pois ela foi “inspirada por Deus” e o irmãozinho foi “ungido por Deus”. Quanta heresia é engolida por causa desse pensamento. Em Atos 17:11, a Bíblia diz que o povo de Beréia eram mais nobres que os de Tessalônica, pois mesmo ouvindo o apóstolo Paulo pregando, analisavam tudo que era dito, conferindo se era assim mesmo nas Escrituras.
Como diz o titulo do livro de John Stott, Crer É Também Pensar. Precisamos aprender que Deus não nos deu um cérebro de enfeite. Ele nos deu capacidade de analisar, de julgar e de criar.











