
Pensar os passos éticos seguidos pelo cristianismo neste último quartel do século XX e primeiro decênio do século XXI exige uma reflexão que não se finda às altas percentagens conquistadas através do trabalho dos missionários ou mesmo dos megatemplos construídos para abrigar os hiperegos de pastores e evangelistas, mas soma-se a isto uma ontologia dialética no que se refere aos caminhos éticos tomados.
Se analisarmos a filosofia cristã, tomamos parte na cosmovisão de Jesus sobre o amor a Deus e ao próximo, chegando às prerrogativas relacionais que circulam a filosofia cristã das igrejas emergentes.
Sobretudo o modo como vem sendo tratado este assunto entre pastores e seguidores, entre evangelistas e rebanho tem tomado minha atenção por algum tempo, me levando a escrever sobre tal assunto.
Para que o leitor possa compreender o que quero trazer com este texto, deve-se ter em mente que: a) o mundo se constrói através de processos
interligados, somando-se a isto a economia, a política, a filosofia; b) o evangelho é imutável, e a palavra de Deus é eterna. A partir
disto, iniciaremos nossa discussão.
O Brasil, no decorrer dos anos de 1960 a 1980, fora retalhado pela direção política ditatorial, que somente se finaliza quando do fervilhar dos movimentos sociais e dos movimentos sindicais, proporcionando uma redemocratização que sinalizaria para a construção da Constituição Federal de 1988. Entretanto, esse processo de conquistas democráticas sobre a base governamental se deteriora a partir dos anos de 1990 quando da instauração do regimento econômico e social denominado neoliberalismo, que onera as camadas populacionais através da maximização do grande capital e a minimização dos direitos civis, sociais e políticos das classes trabalhadoras. Lembre-se, caro leitor, de que o mundo se constrói através de processos interligados, que será denominado daqui por diante como dialética.
Mas afinal, como este processo político influencia o cristianismo, como isto o atinge? Para se legitimar, o neoliberalismo propõe uma corrente ideológica capaz de trazer a continuidade para o grande capital e sua sustentação entre os anos, denominada pós-modernidade. Sim, a famosa pós-modernidade que vem tirando o sono de muitos pastores Brasil afora. Por ter dedicado boa parte de minha produção acadêmica ao estudo do desenvolvimento da pós-modernidade e de uma de suas vertentes, o neoconservadorismo, decidi escrever este texto, ao perceber que muitos cristãos tem se perdido em concepções incorretas da terminologia.
A pós-modernidade, como vemos, surge então como método ideológico necessário para a continuidade do grande capital, exato. Mas o que
isto tem a ver? Tem a ver que você meu amigo leitor está reproduzindo a cada dia toda uma corrente ideológica que sustenta a má distribuição
de renda e as baixas nos istemas públicos, contribuindo para a segregação social e ao aumento indiscriminado da pauperização e do acúmulo de capital, tanto objetivamente quanto subjetivamente.
Vamos melhorar esta argumentação.
A objetividade da reprodução ideológica
Não vou tomar o tempo do leitor explicitando os meandros teóricos de Marx em O Capital, mas vou simplificar a questão da reprodução
ideológica de modo que o leitor compreenda o necessário para sua trajetória de vida: a reprodução ideológica ocorre no plano moral e
ético, no estudo, na compreensão das transformações societárias, bem como na argumentação e direção teórica sobre determinados assuntos.
Todo o plano ideológico pressupõe poder, que se vincula exatamente aos processos supracitados. A igreja tem retribuído ao grande capital não
somente no plano da acumulação, como vemos nos megatemplos e, até mesmo, nas igrejas de várzea (hehhehe): tem contribuído para a
continuidade do capitalismo através das argumentações ditadas em cultos e em modus vivendi diferenciados daqule o qual Cristo divulgou.
Deparamo-nos com o apego ao dinheiro e não é atoa: faz parte dos desígnios capitalistas a afeição às posses e ao luxo. Ao assistir televisão, nos canais onde temos as programações dos templos de Mamon, observei os testemunhos de fé: “eu estava falido, minha vida tinha se acabado. Mas então eu fui no Culto dos Empresários, participei da Fogueira Santa e hoje tenho dois carros zero, casa na praia…”. Daí me lembro de meu pai, que possuía uma micro empresa e que estava falindo, indo procurar este templo de Mamom para uma tentativa de salvar a empresa por métodos espirituais.
Percebem a reprodução ideológica? Irmãos, este é um exemplo de reprodução ideológica, dentre vários. Vamos ao exemplo de que mais
gosto, que se passa em igrejas emergentes e que tem se reproduzido ideologicamnte a níveis perigosos: os irmãos pregam as questões
relacionais, como havia dito anteriormente, logo no início deste texto, reprodzindo as prerrogativas de Cristo no que se refere ao amor
a Deus e ao próximo. Tudo bem, onde está o mal nisto? O problema, leitor, é que amar ao próximo é mais fácil que amar ao distante. Entende o paradoxo? Amar aqueles seus amiguinhos da igreja e se reunir com eles é muito bom, mas não se limita a isto: o próximo por vezes passa fome e frio e reside em locais inimaginados por você. Digo isto por experiência própria: em visitas domiciliares descobri famílias residindo em buracos (literalmente), ou mesmo na rua, em pontes e viadutos, sem água, sem luz, sem nada. Este próximo é mais difícil de amar. É mais difícil amar ao próximo viciado em crack, ou aquele seu próximo travesti, ou mesmo ao próximo catador de materiais recicláveis. E você acha que orar por eles vai trazer algum conforto na hora da fome ou na hora de pagar uma conta?
Tiago, o irmão consanguíneo de Jesus, reflete a respeito do que quero trazer ao leitor: a fé sem obras é… morta!
“Porque assim como o corpo sem espírito é morto, assim também a fé sem obras é morta” (Tiago, 2:26)
Ora, se a fé sem obras é morta, irmãos, não se iluda tanto com as questões relacionais. Porque estas questões devem estar intrínsecamente ligadas às ações para com o próximo. A igreja Católica Romana tem se empenhado em atrelar-se à luta pelas causas sociais há algum tempo, seja através das Cáritas Diocesanas, seja através das Pastorais da terra, da criança, da saúde, das águas, carcerária, dentre tantas e tantas outras. A teologia da libertação deveria nos ser útil, enquanto cristãos que, amando a Deus e ao próximo, realizam suas obras em prol do desenvolvimento do Reino e do próximo. Muitos de nós creditamos este amor ao próximo canalizando às missões o trabalho social da igreja. Entretanto, em sua cidade caro leitor as políticas públicas vem sendo defasadas, dilaceradas e vem se propagando a pobreza e o descaso social às massas populacionais, em intensidade semelhante ou maior ao que vem ocorrendo onde existem as bases missionárias, como nas comunidades indígenas, ribeirinhas, ou na África e na Ásia. E ainda há aqueles que querem evangelizar na Europa, francamente… Os impactos neoliberais corroboraram para a proliferação do grande capital às custas do desmonte estatal. Então, gostaria de frizar, se você ama a Deus e ao próximo, faça alguma coisa. A fé sem obras é morta.
A subjetividade da reprodução ideológica
Para se reproduzir ideologicamente, são criadas situações e pretextos que justifiquem determinado pensamento sobre determinada situação. A reprodução ideológica parte do princípio da dominação sobre uma situação posta, refletindo nos caminhos a serem tomados por indivíduos
inseridos em sociedades. Este princípio do poder remete-nos à simplória argumentação de que, não somente você leitor, mas como todos
nós, reproduzimos o poder cotidianamente. Ao processo de reivindicação do poder e à assunção do poder como forma de controle, Gramsci (2007,p.130) denominaria por hegemonia. Para Gramsci (assim como para Marx), todo o processo de organização societária ocorre por intermédio da luta de classes, que corresponde ao motor da história (MARX, 200).
Para se legitimar em sua classe social, o grupo que almeja o poder deve estabelecer conexões com as necessidades e demandas desta classe, realizando todo um movimento político. Então, ao assumir o poder sobre as classes, tal grupo realiza o processo de hegemonização, ou seja, enraiza suas concepções e diretrizes ético-políticas entre as classes, de modo a transformá-las numa totalidade societária. Não nos cabe, neste espaço, partir para a análise de Lukács a respeito da complexidade do todo societário, do ser social, mas compreendermos asubjetividade desta ação de hegemonia.Subjetivamente, tanto o grande capital, quanto o Estado e a Igreja tem exercido seu poder de dominação sobre seus membros participantes, fundamentando as compreensões acerca dos fatores decorrentes destas organizações: compreensões sobre o Estado, sobre a ética, sobre a política, sobre o mercado, sobre a moral, dentre outras. E está justamente neste fator o maior poder da igreja contemporânea: sua dominação ideológica, seu processo de reprodução ideológica entre as massas participantes.
Reparem em Jesus: era um cara simples, passava pelas mesmas necessidades e desejos, foi tentado mas não sucumbiu à tentação, viveu
em um mundo dominado por ideologias capazes de transformarem os rumos políticos e sociais em um piscar de olhos. Mesmo assim não se prestou a orar ao Pai reivindicando o que era seu por direito: não pediu riquezas, não pediu poder político, se lixava pra economia. Apenas
realizou aquilo que muitos de nós têm renegado: a plenitude do amor a Deus e ao próximo.
A igreja atrela-se ao grande capital excluíndo o way of life de Jesus, deteriorando suas prerrogativas e se afastando do substrato divino. As novas bases estão divididas em dinheiro e prosperidade, ou em amor ao próximo e relacionamento com este. A prosperiadade é uma benção?Obviamente que sim. E o amor ao próximo? Também. Porém, e sempre existem “poréns”, nada disso traz benefícios ao Reino. O que você temfeito com sua prosperidade? E o que você tem feito ao seu próximo?A subjetividade reflete em suas escolhas pessoais e em seu momento de reprodução destas escolhas e posicionamentos, seja com seus filhos, seja com seus amigos.
Pós-modernidade
A pós-modernidade se caracteriza, segundo GIDDENS (1998) enquanto o processo de negação da história, de relativização dos axiomas e da supressão das estruturas de pensamento ou ação pela vontade. Mantém-se enquanto filosofia aquém das predisposições históricas, estabelecendo negatividades subjetiva e objetivamente nos derivados níveis de organização da vida social, inclusos as relações sociais e seuprocesso de reprodução. Conforme Jameson (2004) “a emergência da pós-modernidade está estritamente relacionada à emergência desta nova fase do capitalismo avançado, multinacional e de consumo” (JAMESON, 2004, p. 26), o que infere sobre as condicionalidades presentes no atual contexto sócio-econômico. Nestes termos, a sociedade do consumo emerge de forma diferenciada de sua protoforma, estabelecida, principalmente, nos Estados Unidos quando do período de acumulação fordista, pois, segundo Becker “o pósmodernismo é o consumo da própria produção de mercadorias como processo” (1995, p.14).
Quando referimo-nos à pós-modernidade, devemos perceber sua influência sobre os conceitos atribuídos historicamente: porquanto os entraves ferozes marcaram toda uma época de lutas pela garantia de direitos, a pós modernidade desfez valores totalizantes para a aceitação de todo um aparato ideológico diferenciado, como a crítica da razão/irracionalismo; pensamento da “diferença”; fragmentação assistemática; desconstrução às estruturas; vazio ético como desmantelamento de um sentido ético historicamente construído através das lutas de classes; declaração do “fim das ideologias”; convivência acrítica da crise; reciclagens e revivalismos de fases culturais e a arte do superficial e do acidental em detrimento da “arte do profundo e do elementar” (BARRENTO, 2001, p.40).
Desta forma, a pós-modernidade, iniciada já no fim da década de 1960, embalada pelas transformações societárias da época (HOBSBAWM, 2001), trouxe consigo a desconstrução da história da luta de classes, alargando suas micropolíticas (GUATTARI&ROLNIK, 2005) às camadas sociais, fazendo o pensamento do novo tornar-se o sistema de bricolage de Deleuze e Guattari (DELEUZE&GUATTARI, 1976). A rápida assimilação da pós-modernidade na sociedade deu-se pelas vias das transformaçõessocietárias imanentes, que possibilitaram novos rumos à sede por conhecimento de filósofos, pensadores, críticos, políticos, dentre outros, manifestando-se enquanto opinião pública e declarando o fim de vários segmentos da vida humana, como por exemplo o trabalho, as ideologias, a história, o marxismo, dentre outros (HALL, 2004).
O fim das categorias totalizantes permeia as igrejas no sentido de deteriorar os ensinamentos cristãos: se há um fim das categorias totalizantes, universais a determinada classe, há a reconstrução destas a partir da fragmentação da vida que, no nosso caso, refere-se a vida cristã. Deste modo, a ética e a moral tomam novo sentido, incorporando novos valores e concepções, transformando-nos todos em pós-modernos pelas nossas escolhas e condutas.Aí está uma grande polêmica, pois refiro-me aos rumos tomados pela igreja enquanto caminhos pós-modernos, dotados de fragmentações das palavras de Jesus, cujas prerrogativas baseiam-se no amor a Deus e ao próximo. Tomam-se apenas algumas características deste universo que corresponde aos dois maiores mandamentos e, rizomaticamente, deterioram-se para a construção de uma ética cristã que se baseia ou em relacionamentos para com o próximo ou em implicações de ordem econômica, de modo a aproveitarem-se de duas demandas das sociedades atuais, objetiva e subjetivamente, quais sejam: a) problemas afetivos e b) problemas econômicos.
Aproveitando-se destas demandas, as igrejas tem buscado erroneamente subsidiar a vida cristã cotidiana através de pregações ou livros de
ensinamentos vazios, como vidas com propósitos, ou o que Deus espera de você, ou “você é importante”, “você é alguém especial”. Não estou
desmerecendo estes escritos, apenas explicitando que chegamos ao ponto de precisarmos de reflexões de ajuda moral para conseguirmos caminhar.
Concluindo
Depois de alguns anos pesquisando o desenvolvimento neoliberal no Brasil e, especificamente o neoconservadorismo, chego a conclusão de
que precisamos nos ater mais a Jesus e desvelar o todo complexo de seus mandamentos: amar a Deus e ao próximo. Estas simples palavras
detém um peso maior do que possamos compreender, necessitando de reflexões e ações cotidianas. Para compreendermos o que é amar a Deus
e ao próximo precisamos estar atentos ao Espírito, que sopra onde quer, para realizarmos o movimento de compreensão da essência cristã,
do substrato cristão.
A pós-modernidade é intrínseca ao desenvolvimento neoliberal, ao insustentável e incontrolável capital (MÉSZÁROS, 2002) e nos cabe
lutar não apenas contra uma de suas bases de legitimação mas confrontar o capitalismo que está dentro de nós, arraigado a nossas
atribuições morais e éticas, e limpar nossos corações e mentes do lastro conservador que nos aflinge e nos cega para o amor a Deus e ao
próximo. Só assim, talvez, consigamos viver uma vida cristã digna de seu nome.











